O passado nao é mais como era antigamente

Haroldo Barbosa.
Artigo publicado no Bit Autônomo e no portal O Povo/Blog do Eliomar

“Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado…”

A frase acima do livro 1984, de George Orwell, publicado em 1949, é um dos casos em que a vida imita a arte. Desde há muito tempo os poderosos sonham com a possibilidade de controlar a história e mais que isso: a memória, as recordações das pessoas. Hoje com o big data, a globalização e o consumo de informações de forma quase que exclusivamente virtual, isto já está acontecendo. Assim, a história pode ser constantemente reescrita, ter passagens suprimidas ou acrescidas ao bel prazer de um punhado de milionários, governos e corporações. E o valor disto para estes é incomensurável, afinal quem controla o passado…

Quanto vale, por exemplo, para a Wolkswagen apagar da sua história o fato de que usou mão de obra escrava fornecida pelo nazismo em suas fábricas durante a II Guerra Mundial?

O quanto é importante para os donos do jornal Folha de São Paulo fazer esquecer o fato de que apoiaram e financiaram a ditadura militar brasileira iniciada com o golpe de 1964?

O que o pré-candidato à presidência, Jair Bolsonaro, que hoje posa de machão e defende o armamento de todos como parte da solução para a violência, daria para fazer esquecer o momento em que armado, foi assaltado, não reagiu, entregou a moto e a pistola aos dois assaltantes e ainda disse “mesmo armado, me senti indefeso”?

Os casos acima são exemplos bem conhecidos e dos quais restam registros, mas e os milhares, senão milhões de outros que ocorreram, estão ocorrendo e vão ocorrer?

Em seu livro Sociedade do Espetáculo (1968), Guy Debord falando dos regimes totalitários diz que “O projeto, já formulado por Napoleão, de ‘dirigir monarquicamente a energia das recordações’ encontrou a sua concretização total numa manipulação permanente do passado, não só nos significados mas também nos fatos’.

Este ano o governo chinês proibiu mencionar em redes sociais palavras e termos críticos ao Partido Comunista e ao ditador chinês, Xi Jinping. Entre os vários termos, curiosamente estão os livros “1984” e “Revolução dos Bichos”, de Orwell. Se você quiser escrever determinadas palavras, simplesmente as mesmas não serão publicadas e nem buscas feitas pelos termos proibidos.

O desaparecimento, a proibição, a não divulgação e a alteração de conteúdo vem sendo cada vez mais constantes. Há muito que ativistas como Julian Assange, do Wikileaks, denunciam estes fatos. Em seu livro “O Filtro Invisivel”, Eli Pariser chama atenção para a s bolhas criadas pelo Google, Facebook, Amazon e outros, para que seus acessos, resultados de busca e etc. sejam controlados e direcionados.

No livro “Quando O Google encontrou o Wikileaks”, Assange cita o caso de artigos tirados do ar ainda em 2003 pelo jornal inglês Guardian e de sites que denunciaram construtoras e que não encontraram mais servidores que quisessem mantê-los online.

Em agosto de 2017, um dos maiores portais de notícia do Ceará simplesmente sumiu do dia para a noite com uma notícia que tratava da remoção da defesa das dunas do parque do Cocó. E os exemplos são muitos.

Mas o arsenal de manipulação vai além. Donald Trump, presidente norte-americano eleito com base em mentiras, é um dos maiores expoentes da pós-verdade, na qual não importam os fatos reais, o que aconteceu, mas sim no que se acredita. Trump usa largamente as redes sociais para falar diretamente a seus seguidores, evitando a imprensa e atacando jornalistas e veículos que podem contestá-lo.

Muitos outros políticos seguem seu exemplo e buscam dirigir-se diretamente a seu público. O governador do Ceará, Camilo Santana (PT), é um deles. Ele usa seu perfil para anunciar obras e ações, dar broncas em secretários e até para divulgar reajuste salarial dos servidores. Na era da pós-verdade, é mais cômodo fazer monólogo.

Vivemos em uma era na qual ao comprar uma TV já aceitamos ser gravados em casa, temos nossa privacidade violada por aplicativos em computadores e smartphones, somos vigiados por milhares de câmeras nas ruas e em locais privados e até mesmo nosso direito à memória e a história nos está sendo negado.

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