A sobrevivência do mais gentil

“Se a gente é o que como. Quem não come nada some. Deve ser por isso que ninguém enxerga toda essa gente que passa fome.” Em um ônibus pela cidade de Marabá. Fonte: Autor.

 

Um dia eu peguei o ônibus “São Félix”, saindo da Cidade Nova, passando pela Cidade Velha e fazendo o trajeto mais longo possível, até a Universidade Federal, em Marabá (PA). Eu fui para o fundo do ônibus e sentei do lado de um senhor bem simples e pele castigada por uma vida recheada de trabalho duro. Sem nenhum interesse em interações sociais, eu peguei o livro que estava na bolsa e comecei a ler durante o percurso. Percebi que o senhor estava sentado na alça da minha bolsa, interrompi a leitura e puxei levemente a alça, para não incomodá-lo. Nesse momento ele me pediu desculpas e eu respondi que era minha culpa, por deixar minhas coisas sempre tão espalhadas. Ele respondeu com um não esperado (e fora de contexto) “você merece”.

Esse foi um momento muito intenso, eu quis não entender, mas como uma estudante universitária branca, eu não pude deixar de sentir nos meus ombros o peso de uma história repugnante, que vem desde o período escravocrata e segue vendo com normalidade todas as regalias que a sociedade continuou separando para uma pequena classe dominante. O normal é ferir o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que diz: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.

O senhor do ônibus não conseguia se conectar comigo. Muitas pessoas devem passar por ele sem se conectar de forma alguma. Ele provavelmente sente diariamente na pele o significado da palavra desprezo. Nós conversamos. Ele estava visivelmente feliz por finalmente alguém ter tirado um tempo para conversar com ele. Ele veio da mesma cidade que eu nasci. Ele conhece a área onde meus avós moram, bem o suficiente para me recomendar um bom bar na minha próxima visita ao Conjunto Ceará. Nós nos conectamos. Ele me disse que iria se lembrar de mim no seu coração. Eu fiquei extremamente tocada.

A nossa capacidade de nos conectarmos com “o outro” é a coisa mais bela que podemos experimentar como seres humanos. Como Tom Shadyac sublinha no seu filme I am, a frase que melhor captura o pensamento de Darwin sobre o seu trabalho é “a sobrevivência do mais gentil” (ao contrário da frase do perigoso darwinista social Herbert Spencer, “a sobrevivência do mais apto”). No filme de Shadyac, ele destaca também que a palavra amor foi usada 95 vezes no primeiro livro de Darwin sobre seres humanos, A Descendência do Homem.

Há muitos exemplos sobre o quão belo é desenvolver empatia e perceber como a conexão humana não precisa de fronteiras. Como a Yolanda Rodrigues disse em entrevista, “empatia é o símbolo da paz mundial”. E um exemplo disso pode ser visto no filme Encounter Point, documentário que mostra como israelenses e palestinos foram unidos pela violência que seus familiares sofreram.

Um ato que parece simples, como agirmos com fraternidade, termos empatia com “o outro” e entender o quanto estamos conectados, faz uma grande diferença no nosso crescimento como sociedade. Darwin disse que em nossos predecessores hominídeos, as comunidades de indivíduos mais simpáticos tiveram maior sucesso na elevação da prole mais saudável para a idade de viabilidade e reprodução — condição necessária para evolução.

Foto: Maragda Farràs (https://unsplash.com/collections/139432/humanity?photo=UjGjirzkat4)

Pesquisadores de várias áreas vêm comprovando essa teoria de Darwin, como é ilustrado no experimento de Darlene Francis e Michael Meaney. Eles mostram que filhotes de ratos que tiveram um ambiente mais acolhedor e com mais altos níveis de contato tátil de suas mães, mais tarde se tornam ratos maduros, com níveis reduzidos de hormônios do estresse e têm sistemas imunológicos mais robustos.

E essa mesma resposta acontece em uma escala maior, quando temos nossa sociedade como referência. É o que mostra Richard Dawkins, autor do livro O Gene Egoísta, onde ele escreve que altruísmo não é algo contraditório ao egoísmo do gene, pois ele contribui para a sua sobrevivência da espécie. Ou Edward O. Wilson, que mostra que a nossa evolução de sociedade tribal em uma sociedade global favorece cada vez mais uma interação humana que tenha um comportamento compassivo e cooperativo, em vez de abordagens insensíveis e competitivas.

Pensando assim, não faz sentido nos trancarmos nos nossos sentimentos egoístas ou mantermos as regalias de uma classe dominante, pois a ciência mostra que uma sociedade empática e compassiva terá mais sucesso (e óbvia felicidade).

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